Kingdoms Associated Press

View this kingdom dispatches

09/04/1474 Editorial: A guerra não entrou sozinha em Portugal




Coimbra (KAP)

Há uma tentação cómoda, e como todas as tentações cómodas, é falsa. A de escrever como se a guerra que hoje nos cerca tivesse começado no dia em que SMR José Pacheco resolveu falar dela, a 8 de abril, ou no dia em que lhe puseram a coroa sobre a cabeça, a 16 de janeiro. Não começou aí. O discurso veio no fim. A coroa veio tarde. O que nos trouxe até aqui começou antes, e começou com ele.

Porque Dom José Pacheco não apareceu vindo de fora para encontrar um Reino em chamas. Durante os últimos dois anos esteve sentado demasiado perto de cada uma das portas por onde o fogo entrou. Primeiro como Conde de Lisboa, depois como figura maior na segurança do Reino, depois como Senescal, e agora como Rei. Se quiser julgar-se o seu reinado, convém não começar no trono. Convém começar no rasto.

Basta reler a entrevista de 20 de julho de 1472. Ali já estava o método inteiro, ainda que embrulhado em linguagem de homem moderado. Pacheco elogiava a pluralidade das candidaturas, mas não resistia a reduzir adversários a gente que queria “poleiro”, a falar em “espantalhos”, a distribuir “total desconsideração” a quem lhe tocava no nervo. Parece detalhe de temperamento. Não é. É política. É o velho hábito lisboeta de chamar ruído ao desacordo e de tratar a divergência como coisa menor até ao momento em que convém tratá-la como perigo.

Depois veio o mar. E aí a conversa deixou de ser estilo e passou a ser consequência. Quando, no início de 1473, o Porto respondeu à chamada crise de segurança, a pergunta lançada a Lisboa era muito simples e continua sem resposta satisfatória: quantos navios de guerra de Lisboa foram enviados para o norte de França, que acordo foi feito, por quem, e em nome de quem. Não falo aqui de boatos de taberna. A própria KAP registou que viu provas de que, a 16 de novembro, duas carracas lisboetas, Black Drakken e Einherjar, afundaram o mercante portuense Your Spirit in the Sky, e que no dia seguinte essas embarcações e outras foram afundadas em combate no norte de França. Ou seja, quando hoje se tenta vender a guerra como fatalidade caída do céu, convém lembrar que Lisboa já andava havia muito a meter os pés num conflito que não era português, e que Pacheco era então o principal rosto político desse condado.

Em vez de explicar, escolheu outra coisa. Escolheu a narrativa. Na entrevista de 30 de janeiro de 1473, foi o próprio José Pacheco quem ajudou a fixar a moldura moral que ainda hoje envenena tudo. Disse que o apoio do Porto à ONE arrastara Portugal para uma guerra internacional com a França. Pediu imparcialidade à imprensa enquanto escolhia quais interlocutores considerava aceitáveis. Falou como homem prudente, mas falou também como homem que já tinha decidido o enredo: Lisboa de um lado, os suspeitos do outro, e o Reino inteiro obrigado a caber nessa simplificação. O problema não é que quisesse combater um adversário. O problema é que começou aí a confusão entre Lisboa e Portugal, entre a linha de uma fação e o interesse nacional.

Poucos meses depois, a 1 de abril de 1473, chegou a Senescalia. E com ela veio a oportunidade de provar que o homem do diálogo existia também quando tinha poder sobre rito, prazo, votação e honra. Não provou. O episódio do “tempo hábil”, em maio, ficou como uma dessas pequenas operações formais que dizem mais sobre um regime do que cem manifestos. Uma votação empatada, quatro vozes afastadas da contagem, sanções a nobres portuenses, e o resultado político exatamente oposto ao prometido: não houve pacificação nenhuma, houve a confirmação de que a regra podia ser usada como ferramenta. Quando uma regra não produz confiança, produz alerta. E um Reino em alerta permanente não está em paz; apenas aprendeu a viver de punhos cerrados.

Daí em diante o hábito piorou. Sob a presidência de Pacheco na Corte dos Nobres, foi-se normalizando a ideia de que retirar títulos, fechar portas e esvaziar representação podia ser tratado como rotina administrativa. Não é o Senescal quem arranca o título com a própria mão, bem sei. Mas num Reino feudal e constitucional, quem conduz o mecanismo, escolhe o ritmo e dá forma ao procedimento nunca é inocente. E quando a exceção passa a repetir-se, deixa de ser exceção. Passa a ser método. O Norte deixou de ver a Corte como casa comum e começou a vê-la como aparelho. E a distância entre Reino de Portugal e Reino de Lisboa deixou de ser caricatura de opositores para se tornar uma descrição incômoda.

Entretanto, lá fora, a conta crescia. A imprensa internacional foram mais claras do que muitos portugueses quiseram ser. Falaram de silêncio monárquico como consentimento. Falaram de um Portugal que, quando a situação se tornava ilegível, não a esclarecia: alargava-a. Falaram de um país em que a guerra das armas já vinha acompanhada da guerra das versões, e em que Lisboa preferia ocupar o papel de bastião moral enquanto perdia terreno, portos, crédito e margem de decisão. Essa leitura pode irritar. Mas irrita porque toca no nervo certo.

Hoje, quando Castela declara estado de guerra, a Catalunha chama à leva e a própria França escreve Portugal como se fosse mais uma frente da sua cruzada continental, vê-se o tamanho da obra. A fratura portuguesa deixou de ser portuguesa. E isso não aconteceu porque um dia, de repente, o mundo enlouqueceu à volta de Lisboa. Aconteceu porque durante dois anos Lisboa, com Pacheco no seu centro político, confundiu influência com alcance, moralismo com governo e exceção com regra. Mexeu onde não conseguia sustentar, falou como se mandasse mais do que mandava e, quando chegaram as consequências, tentou rebatizá-las de resistência.

É por isso que o discurso de 8 de abril falha, e falha antes mesmo de se entrar nas suas frases mais inflamadas. Não porque seja tarde apenas. É mais grave do que isso. Falha porque quer apresentar como resposta aquilo que é continuidade. O homem que hoje fala de dignidade, liberdade e invasor é o mesmo que, como Conde de Lisboa, deixou o Reino entrar numa lógica de guerra estrangeira; o mesmo que, como Senescal, ajudou a transformar procedimento em arma; o mesmo que, já Rei, passou dois meses e meio a dar ao país um decreto de nomeações, outro de veto nobiliárquico e um silêncio impossível de defender em plena guerra.

O ponto é simples: se Portugal chegou a esta situação, não foi apenas por causa dos inimigos que tem. Foi também por causa do homem que agora se oferece como seu salvador. José Pacheco não caiu do céu sobre a ruína. Vinha do coração dela. Daqui para a frente cada um dirá o que quiser. Haverá quem continue a preferir o conforto dos comunicados, a música das bandeiras estrangeiras e a velha preguiça de confundir Lisboa com a pátria inteira. Eu fico com as datas. Julho de 1472. Novembro de 1472. Janeiro de 1473. Abril de 1473. Maio de 1473. Dezembro de 1473. Janeiro de 1474. Abril de 1474. Quem quiser perceber o que foi feito ao Reino não precisa de profetas. Precisa apenas de memória.

Brigal para a KAP de PORTUGAL.


_____________________________________________________________________________________
Artigo Jornalístico aprovado pelo Redator-Chefe Augusto Bibiano d'Avis.

O que está achando dos nossos artigos e materiais publicados?

Quer ser um Redator e fazer parte da Nossa Equipe? Pegue aqui o modelo de Formulário. Apresente o formulário na Sede da KAP Portugal ou envie o formulário, através de Mensagem Privada no Fórum 1, para o Redator-Chefe Augusto Bibiano d'Avis.

Quer fazer valer a tua voz? Precisa de Direito de Resposta? Apresenta o pedido na Sede da KAP Portugal ou na KAP Internacional.

Tens alguma violação à Carta da KAP para denunciar? Compareça na KAP Internacional e deixa tua denúncia.

Ohh, não conheces a Carta da KAP? Leia a nossa Carta na Sede da KAP Portugal.

Cours

Product Price Variation
Loaf of bread 4.48 -0.67
Fruit 9.19 0.56
Bag of corn 2.89 -0.01
Bottle of milk 7.96 0
Fish 10.3 -1.55
Piece of meat 18.19 2.42
Bag of wheat 10.34 0.04
Bag of flour 11.23 0.38
Hundredweight of cow 22.29 1.84
Ton of stone 13.82 0
Half-hundredweight of pig 14.4 0
Ball of wool 7.31 -0.38
Hide 14.3 0
Coat N/A N/A
Vegetable 6.93 0.99
Wood bushel 3.94 -0.57
Small ladder 22.5 0
Large ladder 63.75 4.88
Oar 30 0
Hull 28.04 0
Shaft 8 1.25
Boat 82.5 0
Stone 14.39 1.08
Axe 143 -2.5
Ploughshare N/A N/A
Hoe N/A N/A
Ounce of iron ore 17.81 -0.08
Unhooped bucket 22.75 0
Bucket 32.25 -0.25
Knife 12.71 0
Ounce of steel 58 0
Unforged axe blade 70 0
Axe blade 123.13 0
Blunted axe 140.13 0
Hat 47.56 0
Man's shirt 107.2 5.08
Woman's shirt 83.44 0
Waistcoat 139.91 0
Pair of trousers 58.06 0
Mantle 269.98 0
Dress 202.5 0
Man's hose 43 0
Woman's hose 35.62 0
Pair of shoes 21.19 0
Pair of boots 63.75 0
Belt 37.06 0
Barrel 10.15 0
Pint of beer 0.64 0
Barrel of beer 66.29 0
Bottle of wine N/A N/A
Barrel of wine N/A N/A
Bag of hops 13.99 0
Bag of malt N/A N/A
Sword blade 131.56 0
Unsharpened sword 103.13 0
Sword 156.33 0
Shield 35.63 0
Playing cards 63.13 0
Cloak 147.69 0
Collar 57.25 0
Skirt 103.5 0
Tunic 195 0
Overalls 102.44 0
Corset 102.44 0
Rope belt 46 0
Headscarf 53.63 0
Helmet 138.75 0
Toque 47.99 0
Headdress 70.69 0
Poulaine 59.25 0
Cod 17.5 0
Conger eel 11.88 0
Sea bream 15.06 0
Herring 21.34 0
Whiting 18.44 0
Skate 16.38 0
Sole 17.38 0
Tuna 17.69 0
Turbot 18.28 0
Red mullet 18.5 0
Mullet 17.69 0
Scorpionfish N/A N/A
Salmon 18 0
Arctic char N/A N/A
Grayling 17.01 0
Pike 15.43 0
Catfish N/A N/A
Eel 16.81 0
Carp 13.75 0
Gudgeon 17.81 0
Trout 17.94 0
Pound of olives 11.88 0
Pound of grapes 6.61 0.05
Sack of barley 16.88 0
Half-hundred weight of goat carcasses N/A N/A
Bottle of goat's milk 12.81 0
Tapestry 107.19 0
Bottle of olive oil 126.25 0
Jar of agave nectar N/A N/A
Bushel of salt 24.81 0
Bar of clay 2.31 -1
Cask of Scotch whisky 93.75 0
Cask of Irish whiskey 98.75 0
Bottle of ewe's milk 14.07 0
Majolica vase N/A N/A
Porcelain plate N/A N/A
Ceramic tile N/A N/A
Parma ham 92.5 0
Bayonne ham 80.31 0
Iberian ham 79.5 0
Black Forest ham 81.25 0
Barrel of cider 79.06 0
Bourgogne wine 84.38 0
Bordeaux wine 60.63 0
Champagne wine 179.38 0
Toscana wine 75 0
Barrel of porto wine 88.75 0
Barrel of Tokaji 130 0
Rioja wine 108.44 0
Barrel of Retsina 90.63 0
Pot of yoghurt 79.69 0
Cow's milk cheese 75 0
Goat's milk cheese 115 0
Ewe's milk cheese 85.38 0
Anjou wine 40.31 0
Ewe carcass 14.35 0
Mast 434.66 0
Small sail 183.63 0
Large sail 939.58 0
Tumbler of pulque N/A N/A
Jar of pulque N/A N/A